O que se passou nas eleições presidenciais romenas ficará, por muito tempo, gravado nos anais da infâmia e da… manipulação eleitoral por meios cibernéticos. Com efeito, a 24 de Novembro de 2024 teve lugar a primeira volta das Presidenciais, que será seguida de uma segunda volt a 8 de dezembro uma vez que nenhum dos candidatos conseguiu alcançar a maioria absoluta.

O que se passou a 24 de Novembro foi que um candidato que a maioria dos romenos desconhecia – Călin Georgescu – apareceu classificado em primeiro lugar reunindo 2,120,401 (22.94%) votos. O segundo classificado foi Elena Lasconi do partido USR (“União Salvar a Roménia” de centro-direita e liberal) com apenas 1,772,500 (19.18%).

Călin Georgescu não fez campanha em outdoors, não pagou anúncios nos jornais, não participou em nenhum dos 38 debates: 30 (!) na televisão, 6 na rádio e 3 online. Vindo praticamente do nada, desconhecido pela maioria da população, Călin, venceu a primeira volta criando um terremoto com epicentro na Roménia mas que se estendeu e estenderá por todo o continente europeu nos próximos anos.

É certo que existiram 47.45% de abstencionistas mas com todas as sondagens a darem ao candidato independente uma votação de menos de 7% o facto deste acabar à frente foi uma grande surpresa. A percentagem recolhida é semelhante aquela que outros candidatos extremistas obtêm noutros países (30%) sendo normalmente o valor onde se movimentam os candidatos e partidos mais extremistas, populistas e autoritários. O resultado, sobretudo, prova que é possível usar as redes sociais, e em particular, o TikTok para condicionar eleições. E que este uso tem efeitos políticos internos e na União Europeia e NATO, tidas como um todo.

O que se passou na Roménia, em Novembro de 2024 pode repetir-se, por exemplo, em 2027 em Espanha (eleições para o parlamento), na Polónia em 2025, Irlanda (29 de Novembro de 2024) e até em Portugal (Autárquicas em 2025 e Presidenciais em 2026).


Sumário do que defende Călin Georgescu:

Defende a suspensão de toda a ajuda à Ucrânia.
Condena o envolvimento da Roménia nas iniciativas de defesa antimísseis da NATO.
Descreve o escudo antimísseis de Deveselu, da NATO, onde está instalado um sistema “Aegis Ashore Ballistic Missile Defense System” como uma “vergonha diplomática”.
Em 2020, elogiou Putin como “um dos poucos líderes genuínos” que se preocupam com a sua nação.
Afirmou que a “melhor oportunidade” da Roménia reside na “sabedoria russa” no campo diplomático.
Saiu do partido AUR (populista e nacionalista de direita activo na Roménia e na Moldávia) em 2022 devido à sua postura pró-Rússia e por isso prejudicar a imagem do partido junto do eleitorado.
Apoiou Corneliu Zelea Codreanu (líder do movimento antissemita Guarda de Ferro).
Afirma que a NATO não protegeria os seus membros (como a Roménia) em caso de ataque russo.
E, sobretudo, elogiou Ion Antonescu (líder da Roménia durante a Segunda Guerra Mundial, aliado de Hitler até ao último momento).


Porque foram manipuladas as eleições na Roménia?

O objectivo foi, aparentemente, duplo: por um lado criar na sociedade tanta informação contraditória a um ponto em que se torna difícil confiar numa “verdade” única e desmoralizar a crença da população no sistema democrático, desmobilizando a participação e fazendo crer que “são todos iguais” fragilizando assim qualquer governo que saia de qualquer eleição democrática.

Este objectivo duplo torna-se alcançável logo que uma percentagem significativa da população esteja online e consuma sobretudo informação – sem filtros nem verificação jornalística – que lhe chega através das redes sociais: Telegram, Youtube e, sobretudo, Tiktok.


Como foram manipuladas as eleições na Roménia?

Durante dias, especialmente no dia das eleições (na Roménia, como em Portugal, a maioria dos eleitores decide o seu voto na recta final da campanha), o TikTok foi inundado de vídeos de propaganda muito agressivos publicados por uma grande rede de bots em comentários favoráveis a Călin Georgescu.

A rede organizou-se em três grupos de “bots”:
1. Nomes de utilizador reais mas sem conteúdo ou com playlists aleatórias de artistas russos ou de países de língua russa.
2. Contas com números logo após os nomes: (p.ex. alina232528, mariusraveica7, carmenstanescu881, sasumihai15 ou
sasumihai15).
3. Um grupo com letras aleatórias depois do “nome”

A campanha foi também promovida por alguns dos influencers romenos com maior número de seguidores do TikTok que espalharam conteúdos e fizeram explodir a quantidade de vezes que estes eram apresentados aos utilizadores.

A utilização de um número tão grande de bots indicia que pode ter havido acesso directo aos sistemas do TikTok através de uma API acessível por alguém com muitos recursos técnicos e operando, provavelmente, a partir do estrangeiro. O mesmo tipo de fenómeno registou-se também no facebook e no youtube, mas em menor escala.

A 27 de Novembro o candidato tinha 388.3 mil seguidores e 4.5 milhões de Gostos no TikTok: Números muito relevantes porque reuniu mais de 2.1 milhões de votos. Na Roménia, estima-se que a rede social chinesa seja usada sobretudo pelos mais jovens e pelos mais idosos com uma penetração menor na camada de utilizadores entre os 25 e os 50 anos.

A operação de manipulação eleitoral pode ter sido conduzida directamente a partir do estrangeiro e, designadamente a partir da Rússia, ou exercida indirectamente através de empresas de marketing digital locais como sucedeu há alguns com a Tenet Media (em que 10 milhões de dólares russos financiaram anúncios pró-Trump) ou, em Portugal em várias campanhas de “notícias pagas” pelo governo de Pequim (https://movimentodemocratizacaopartidos.org/2024/07/18/investigacao-revela-campanha-de-desinformacao-chinesa-em-jornais-portugueses/) para promoção dos seus interesses internacionais.

No caso das presidenciais romenas a estratégia parece ter sido dupla com o pagamento a influencers locais que já tinham agendas políticas e ideológicas próximas da de Georgescu e com a criação e gestão destas três camadas de bots repetindo este conteúdo e apelando directa ou indirectamente no voto com conteúdos “pró-família”, nacionalistas e de muito emotivos por forma a conseguir o alcance máximo no algoritmo.

A votação em Georgescu foi particularmente forte entre a diáspora romena (que tem menos informação alternativa ao TikTok sobre o seu país) e nos mais jovens que, raramente acedem aos media convencionais sejam eles a imprensa ou a televisão.

Os conteúdos favoráveis promovidos pelos bots a Georgescu foram elaborados com extrema qualidade e personalizados quase até ao nível individual. O nível de personalização alcançado indica que houve acesso aos dados de cada utilizado havendo rumores na internet romena que IA foi usada para cortar clips por forma a maximizar o seu efeito utilizador a utilizador: isto indica uma operação altamente organizada, profissional e financiada ao nível a que apenas um Estado pode conseguir alcançar.

O que pode ser feito?
(propostas enviadas a todos os eurodeputados portugueses no Parlamento Europeu)

1. A União Europeia (UE) pode proibir o uso do TikTok no seu território. Seria sem precedentes e uma operação típica (e comum) de regimes autocráticos como o russo (que parece ter manipulado estas eleições) ou chinês (que parece ter ajudado a Rússia).
2. A UE pode fazer o que – ironicamente – está a China a fazer e obrigar as plataformas a regularem os seus algoritmos: https://www.scmp.com/news/china/politics/article/3287929/china-sets-deadline-big-tech-clear-algorithm-issues-close-echo-chambers?module=top_story&pgtype=homepage de forma a “evitar algoritmos de recomendação que criem “bolhas de eco”, induzam conteúdos que criem adição, permitam a manipulação de itens em tendência.
3. A UE pode obrigar as plataformas a tornarem públicos os seus algoritmos.
4. A UE deve regular a entrega de conteúdo por algoritmos. Os algoritmos de plataformas como YouTube, Facebook, TikTok, Reddit e outras são projectados numa base muito simples: “manter as pessoas na plataforma e para apresentar a quantidade máxima de anúncios”. Ora, a maneira mais fácil de manter alguém envolvido é jogar com as emoções e, em particular, com a raiva e a ira criando um ciclo de “pessoas irritadas > mais anúncios” o que cria a “radicalização” eleitoral que observamos praticamente em todos os países, e habita dentro das “bolhas de eco”, uma vez que as pessoas mais racionais ou cépticas acabam sendo afastadas deste ciclo de conteúdos.


A resposta do Parlamento Europeu à aparente manipulação eleitoral:

Em 26 de novembro de 2024, o Parlamento Europeu exigiu que o CEO do TikTok comparecesse no Parlamento para explicar o papel da plataforma nas eleições presidenciais romenas. A vitória na primeira volta do candidato ultranacionalista e pró-Rússia Călin Georgescu causou preocupação sobre a direcção política da Roménia, membro da UE e da NATO. A chamada incluia a suspeita de actividades suspeitas, incluindo milhares de contas falsas no TikTok, que teriam promovido o candidato de forma massiva.

O Primeiro-Ministro romeno, Marcel Ciolacu, pediu uma investigação sobre o financiamento da campanha de Georgescu na plataforma, destacando possíveis irregularidades. Embora não haja provas de envolvimento directo da Rússia ou outros Estados, a TikTok foi criticada por falhar em impedir o uso indevido de suas ferramentas, contrariando regras europeias como o Digital Services Act (DSA).

A TikTok negou as acusações, alegando que outros candidatos também utilizaram a plataforma e que tomou medidas para combater a desinformação, como a criação de um centro eleitoral e parcerias com ONGs locais. Ainda assim, a influência da rede social nestas eleições levantou preocupações sobre sua regulação na Europa e a escala da vitória do candidato populista indica que esta manipulação efectivamente aconteceu e que estamos perante mais um episódio da “guerra híbrida” que a federação russa trava contra a Europa e a NATO.

De sublinhar que, em Portugal, o cenário do TikTok é dominado pelo partido Chega com crescimentos da ordem dos 1253.64% nos “gostos” e de 409.23% num ano, por exemplo, para André Ventura sendo seguido, não muito longe por Rita Matias):
https://docs.google.com/spreadsheets/d/1oPstPugFDw2h7ylIXJmM96n8iia8iqGk4xavch0Akiw/edit?gid=942623627#gid=942623627

Respostas de 2 a “Como foram manipuladas as eleições na Roménia? O que é que a Europa deve fazer para impedir repetições do que se passou?”

  1. Avatar de A Manipulação Eleitoral nas Redes Sociais: Desafios Globais e a Resposta Insuficiente – Iniciativa CpC: Cidadãos pela Cibersegurança

    […] nas redes sociais é um problema global crescente conforme a CpC alertou recentemente em https://cidadaospelaciberseguranca.com/2024/11/27/como-foram-manipuladas-as-eleicoes-na-romenia-o-qu…. Neste caso da Roménia, e depois de muita polémica a rede social chinesa declarou que removeu 66 […]

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  2. Avatar de Manipulação Eleitoral no TikTok: Riscos para a Democracia e Desafios na Era Digital – Iniciativa CpC: Cidadãos pela Cibersegurança

    […] Recentemente, a CpC alertou para que o sucedeu na 1ª volta das eleições presidenciais romenas emhttps://cidadaospelaciberseguranca.com/2024/12/06/a-manipulacao-eleitoral-nas-redes-sociais-desafios-globais-e-a-resposta-insuficiente/ e emhttps://cidadaospelaciberseguranca.com/2024/11/27/como-foram-manipuladas-as-eleicoes-na-romenia-o-qu… […]

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