Nas redes sociais multiplicam-se cada vez mais relatos de pessoas convencidas de que os seus telemóveis estão a escutar conversas privadas. Alguém fala de um produto, de uma viagem ou de um restaurante e pouco depois surge publicidade exactamente sobre esse tema no seu equipamento móvel seja ele Android ou iOS e, no passado, a CpC já se pronunciou sobre o tema:
A questão fundamental que continua a surgir recorrentemente é “Como é que o telefone sabe o que estou a pensar?” A explicação é menos misteriosa que o uso clandestino do microsofone pelo telemóvel, mas mais preocupante: Na maioria dos casos, o telefone não precisa de ouvir nada. Nós próprios já fornecemos toda a informação. Sempre que usamos aplicações, pesquisamos algo, clicamos numa ligação ou falamos com alguém numa plataforma digital, estamos a gerar dados. Esses dados são recolhidos, analisados e correlacionados por sistemas de publicidade e de perfilização. As plataformas publicitárias sabem onde esteve ontem, hoje e agora. Sabem com quem comunica. Sabem que produtos pesquisou. Sabem que páginas visitou. Sabem que aplicações usa. Sabem o que pessoas com perfil semelhante ao seu costumam comprar: A partir desta informação conseguem prever comportamentos com enorme precisão.
Isto explica muitos episódios que parecem “misteriosos”. Um utilizador compra um produto na Amazon no telemóvel e pouco depois vê publicidade ao mesmo produto na smartTV ou no computador. Não é espionagem por microfone. É simplesmente a mesma conta associada a vários dispositivos.
Outro fenómeno comum é a inferência social. Se vários membros do seu grupo de amigos começam a pesquisar um determinado produto, os algoritmos podem assumir que o resto do grupo terá interesse semelhante.
Também existe um efeito psicológico conhecido: as pessoas lembram-se das coincidências impressionantes e esquecem os milhares de anúncios irrelevantes que aparecem todos os dias.
Mas isso não significa que o problema seja pequeno: Significa que existe uma quantidade massiva de dados que os telemóveis e aplicações recolhem continuamente. Localização, padrões de utilização, redes de contactos, histórico de navegação e comportamento digital são analisados para criar perfis extremamente detalhados.
Para reduzir esta vigilância digital existem várias medidas práticas que qualquer pessoa pode aplicar:
1. Comece por reduzir o número de aplicações instaladas. Cada aplicação é potencialmente um novo canal de recolha de dados.
2. Reveja regularmente as permissões de microfone, câmara, localização e contactos. Muitas aplicações pedem acesso que não é necessário para a sua função.
4. Desactive a personalização de anúncios nas definições do sistema operativo.
5. Utilize DNS com bloqueio de rastreadores e publicidade. Serviços como AdGuard ou NextDNS conseguem bloquear milhares de domínios usados para tracking.
6. Evite usar a mesma conta em todos os dispositivos. Quando o mesmo login é utilizado em telemóvel, computador, televisão e tablets, torna-se muito mais fácil cruzar informação.
7. Prefira navegadores com bloqueio de rastreadores e cookies de terceiros.
8. Sempre que possível, escolha aplicações com políticas de privacidade transparentes ou software open-source.
9. Alguns utilizadores adoptam soluções ainda mais rigorosas, como sistemas operativos orientados para privacidade ou dispositivos com controlos físicos para microfone e câmara.
Grande parte da vigilância digital não acontece porque as empresas nos espionam ilegalmente. Acontece porque aceitamos termos de utilização que autorizam essa recolha de dados. Trocamos privacidade por conveniência todos os dias. Mas a melhor defesa é a mais simples: compreender como funciona o sistema e reduzir a quantidade de informação que entregamos voluntariamente.

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