Entre 15 e 19 de Fevereiro de 2026, o navio de transporte russo Sparta IV , operado pela Oboronlogistics e ligado ao Ministério da Defesa da Federação Russa, navegou e manobrou durante mais de dois dias ao largo da costa portuguesa, dentro da Zona Económica Exclusiva (ZEE), mas fora das águas territoriais. Foi acompanhado por meios da Marinha Portuguesa e da Força Aérea, incluindo um P-3C CUP+ Orion da Esquadra 601 “Lobos” e um UAV Tekever AR5 da Esquadra 991 “Harpias”. Também o navio de desembarque Aleksandr Otrakovsky, da classe Project 775, integrou a operação russa, tendo ambos cruzado o Estreito de Gibraltar sob vigilância OTAN.

O ponto sensível não é apenas a presença do navio em águas portuguesa (ZEE). É o local esteve: Ao largo de Portugal passam alguns dos mais relevantes cabos submarinos de comunicações que ligam a Europa a África, América e Ásia. Entre eles contam-se:
EUAFRICA E1 (Sistema em construção que reforça a ligação digital entre a Europa e África, com impacto estratégico direto na soberania digital europeia), o ACE (Cabo crítico para tráfego entre a Europa Ocidental e a costa africana, suportando comunicações empresariais, governamentais e militares, o SEA-ME-WE 3 (Sistema histórico que ligou o Sudeste Asiático à Europa, entretanto desativado em vários segmentos, mas que continua a ilustrar a densidade de infraestrutura submarina na região, TAGIDE (Cabo nacional entretanto desativado, mas cujo traçado permanece relevante do ponto de vista físico).

Formalmente, que saibamos, nada de ilegal ocorreu. Em ZEE vigora a liberdade de navegação prevista na Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar. O navio russo manteve o AIS ativo e não houve violação de águas territoriais. Mas na perspetiva da cibersegurança e da segurança das infraestruturas críticas, a análise não pode ficar pela legalidade formal.

Os cabos submarinos transportam mais de 95% do tráfego global de dados. Não são apenas internet comercial. São comunicações diplomáticas, transações financeiras, sincronização de mercados, ligações militares, comunicações satélite de redundância e tráfego cloud entre data centers.

Sabotagem, mapeamento do fundo marinho, colocação de sensores, recolha de sinais ou simples estudo de padrões de proteção são atividades compatíveis com uma guerra híbrida e não exigem o puro e simples corte de um cabo. Já é uma ameaça que os nossos adversários conheçam, testem tempos de resposta e estejam a mapear vulnerabilidades.

A Rússia não declarou guerra formal à Europa. Mas conduz operações de desestabilização cibernética, sabotagem energética e operações de influência há vários anos.

Portugal fez, aparentemente, o que o direito internacional permite: Acompanhamento naval e aéreo. Monitorização. Registo de movimentos. Cooperação com os nossos aliados.

A pergunta é outra: O Sparta IV devia ter sido abordado e inspecionado?
Fora das 12 milhas náuticas, não. Sem indícios concretos de crime, a abordagem coerciva violaria a liberdade de navegação. A atuação foi juridicamente correta.
Outra questão é diferente e mais estrutural. Estamos preparados para proteger os nossos cabos?

Para ajudar a responder a esta pergunta Portugal deveria ter, neste momento, drones submarinos para inspeção de cascos e monitorização de áreas sensíveis: É prática corrente em marinhas tecnologicamente avançadas.

Veículos autónomos subaquáticos deste tipo poderiam:

  1. inspecionar cabos e detectar alterações no leito marinho
  2. monitorizar presença de dispositivos estranhos
  3. vigiar atividades anómalas prolongadas por parte de navios hostis
  4. criar mapas de referência para comparação forense

Portugal tem uma ZEE das maiores da Europa. Se os cabos são infraestruturas críticas, a vigilância não pode ser apenas aérea e de superfície.

Conclusão
O episódio do Sparta IV pode ter sido apenas espera por mau tempo. Pode ter sido simples logística militar. Pode ter sido rotina. Mas em cibersegurança não se trabalha com “pode ter sido”. Trabalha-se com risco…
Cabos submarinos são a espinha dorsal digital do país. Quem os estuda, mede tempos de resposta e testa vigilância não está a passear.
A guerra moderna não começa com mísseis. Começa com sondagens, testes e recolha de informação.

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“A cibersegurança é a arte de proteger a informação digital sem restringir a inovação.”
— Satya Nadella