


O que é o Psiphon Conduit (e o que não é)
Nos últimos tempos tem-se falado muito, sobretudo em redes sociais iranianas e em comunidades ligadas à diáspora e ao ativismo digital, de uma ferramenta chamada Psiphon e, mais recentemente, do Psiphon Conduit. A discussão mistura ajuda solidária, dúvidas técnicas legítimas e suspeitas compreensíveis.
O que é o Psiphon?
O Psiphon é um projeto criado em 2006, com um objetivo específico e limitado: permitir acesso à Internet aberta em contextos de censura estatal.
Não é uma VPN comercial, não foi criado para streaming nem para “privacidade total” (algo que, francamente, é um mito).
O sistema combina túneis encriptados e VPN com técnicas de ofuscação do tráfego, para dificultar bloqueios e inspeção profunda de pacotes.
É desenvolvido e operado pela https://psiphon.ca e https://psiphon.ca/en/about.html, sediada no Canadá, e é usado há anos em países como Irão, China, Rússia e Afeganistão, estando documentado em relatórios académicos e estudos sobre censura digital.
O que é o Psiphon Conduit?
O Psiphon Conduit não é um “novo Psiphon”, nem uma VPN autónoma.
É uma arquitetura destinada a resolver um problema concreto: o bloqueio rápido de servidores centrais.
Na prática:
pessoas em países sem censura podem instalar o Conduit nos seus equipamentos;
Android, iOS e MacOS
https://psiphon.ca/en/download-store.html
O seu computador ou telemóvel passa a funcionar como uma Estação Conduit que depois pode ser usado pelo proxy Psiphon que deve, de seguida, configurar (o setup do Psiphon faz sozinho essa alteração que pode reverter a qualquer momento). Depois, utilizadores em países censurados ligam-se à rede Psiphon e o seu tráfego pode sair para a Internet através desses pontos voluntários.
Ter em conta que os gestores das redes dos países onde estão os utilizadores (por exemplo o regime iraniano: poderão ter acesso ao IP do equipamento onde corre o Conduit: será apenas um entre muitos e teriam que analisar todo o tráfego que sai do Irão (que hoje em dia: é pouco) para listar esses IPs (que, de qualquer rondam, não sendo fixos em ligações domésticas) mas há que admitir que essa possibilidade existe: de identificarem a cidade onde está a correr esse conduit.
O objetivo é descentralizar os pontos de saída, tornando o bloqueio massivo por parte de Estados repressivos e autoritários mais dispendioso e difícil (ou até impossível) para quem censura os seus cidadãos.
Como é que o Conduit funciona:
Há alguns pontos técnicos essenciais, confirmados por auditorias independentes:
O Conduit não aceita ligações diretas de entrada.
Inicia sempre uma ligação de saída (outbound) para a rede Psiphon.
Todo o tráfego dos utilizadores censurados é encapsulado dentro dessa ligação já existente.
Na prática:
funciona por detrás de quase todos os NATs;
não requer IP público nem portas abertas;
o tráfego aparenta ser HTTPS normal.
Tecnicamente, o Conduit atua como um proxy em túnel “de dentro para fora”.
Protocolos utilizados:
O sistema usa túneis baseados em: SSH, TLS/HTTPS e técnicas inteligentes de obfuscação (randomização, padding, tráfego disfarçado).
De notar que os protocolos e padrões podem mudar dinamicamente para evitar bloqueios automáticos.
Fluxo de tráfego (em resumo):
1. O Conduit estabelece ligação de saída aos servidores Psiphon
2. Utilizadores em países censurados ligam-se à rede
3. O tráfego é encapsulado
4. Sai para a Internet usando o IP residencial do voluntário
É precisamente esta opção (IPs residenciais e distribuídos) que dificulta a censura em larga escala.
Servidores centrais: o que existe e para que servem?
Sim, o Psiphon tem servidores centrais.
Não, eles não são os únicos pontos de saída.
Estes servidores são usados sobretudo para:
coordenação,
bootstrapping e
fallback técnico.
Se o sistema dependesse apenas deles, teria sido bloqueado há muito tempo…
Auditoria de segurança independente:
Em 2024, a integração do Psiphon Conduit no núcleo do Psiphon foi alvo de uma auditoria técnica aprofundada (https://cure53.de/pentest-report_psiphon-conduit-library_2.pdf), conduzida pela Cure53, uma empresa europeia de referência em pentesting e auditorias de código.
Pontos essenciais do relatório:
1. auditoria white-box, com acesso total ao código-fonte
2. análise de uma integração complexa (≈13 000 linhas adicionadas, ≈4 000 removidas);
3. testes a protocolos, WebRTC, NAT, STUN, DTLS, gestão de sessões, DoS e dependências.
4. Resultado:
nenhuma vulnerabilidade crítica foi encontrada;
apenas um problema menor (a label constante num canal WebRTC), que foi rapidamente corrigido e verificado;
dependências analisadas, sem falhas conhecidas e
parâmetros críticos gerados e distribuídos de forma segura.
O relatório sublinha, no entanto, dois aspetos importantes:
1. A complexidade do sistema é elevada, o que dificulta auditorias superficiais.
2. São recomendadas avaliações de segurança recorrentes, porque mudanças frequentes podem introduzir riscos não intencionais.
Nada disto prova “segurança absoluta”.
Mas desmonta a narrativa de que o Conduit é tecnicamente descuidado ou uma “caixa preta” improvisada .
Segurança e riscos:
O tráfego é encriptado e ofuscado.
Dificulta a censura e a vigilância massiva mas
Não garante anonimato total.
Nenhuma ferramenta séria promete “100% de anonimato”. Nem o Tor o faz.
Para quem executa uma Estação Conduit:
O IP do voluntário é usado como ponto de saída.
Pode levantar questões junto do ISP ou autoridades, dependendo do país.
Há aumento de consumo de dados e energia.
O voluntário não controla o conteúdo final acedido.
Não é ilegal por definição, mas não é neutro nem isento de consequências.
Canadá e Five Eyes:
O Canadá integra a aliança de inteligência Five Eyes (Cinco Olhos), juntamente com os Estados Unidos, Reino Unido, Austrália e Nova Zelândia. Esta rede anglo-saxónica de vigilância global, formalizada após a Segunda Guerra Mundial, partilha informações de segurança, defesa e ciberinteligência, com o Canadá a desempenhar um papel importante no monitoramento de sinais.
Dado que existem servidores centrais no Canadá, ainda que numa arquitectura complexa e opaca não é impossível (mas tecnicamente difícil) que existam backdoors que disponibilizem acessos às agências de espionagem destes países.
Contudo, sabendo-se que
o código é auditado;
que não foram encontradas backdoors conhecidas
e que o modelo não depende exclusivamente de servidores centrais;
o uso de Conduits voluntários é explícito e opt-in.
Embora isto não elimine riscos políticos ou geoestratégicos, não há qualquer indício que a rede esteja ao alcance do regime iraniano ou seja um mecanismo de controlo e/ou vigilância disfarçado por parte da Five Eyes.
Os Conduits estão agora num pico de uso como se observa em https://conduit.psiphon.ca/pt/stats com a esmagadora maioria de utilizadores
Porque surge com força agora com um pico de 29 milhões de conexões do Irão a 29.01.2026 num crescimento que subiu quase do zero a 22.01.2026
Em contextos como o da actual revolução no Irão e a repressão radical e violenta por parte do regime de Teerão com cortes frequentes de Internet, bloqueio rápido de VPNs comerciais etentativas deliberadas de isolamento informativo. Arquiteturas distribuídas e comunitárias como a dos Conduits voltam a ganhar relevância porque são mais difíceis de neutralizar de forma centralizada.
Como é que alguém no Irão pode usar o Psiphon?
1. Uma pessoa dentro do Irão não usa o Psiphon Conduit. O Conduit é para quem está fora do país.
2. Quem está no Irão usa o cliente Psiphon.
Uso do Psiphon:
1. Instalar o cliente Psiphon
O utilizador no Irão precisa de instalar aa aplicação Psiphon (Android, Windows ou iOS).
Na Play Store do Android, a 03.02.2026b aparecia como “Psiphon VPN: Liberdade Online”
Se estiver bloqueada terá que ser instalada por envio e instalação de um ficheiro APK (Android): o que implica riscos porque há que ter a certeza de que se trata mesmo da aplicação certa.
2. Abrir a app e ligar
Depois de instalada:
o utilizador abre a app;
carrega em “Iniciar”
o Psiphon tenta automaticamente vários métodos até conseguir sair da rede censurada
3. O que acontece por trás nestas navegações(de forma muito resumida)
Quando as VPNs normais estão bloqueadas:
o Psiphon procura rotas alternativas;
podendo usar:
servidores Psiphon,
Conduits (pontes voluntárias) espalhadas por outros países.
Se houver Conduits disponíveis:
o tráfego do utilizador é encapsulado;
sai para a Internet através do IP residencial de um voluntário fora do Irão.
O utilizador não escolhe, não vê nem sabe qual Conduit está a usar.
4. O que o utilizador consegue fazer
Uma vez ligado, pode:
aceder a sites bloqueados;
usar redes sociais;
comunicar com o exterior;
enviar informação (texto, imagens, vídeo).
Atenção: Não significa anonimato total!
É acesso à Internet aberta, não invisibilidade.
Importante: O que o utilizador no Irão não fará
não instala o Psiphon Conduit
não “empresta Internet” a ninguém fora do país
não escolhe voluntários para usar os seus conduits
não controla o percurso do tráfego até chegar ao destino
não tem garantias absolutas de anonimato (isso vem mais da sua atitude defensiva na internet)
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