Dez dias depois de as autoridades iranianas terem ordenado um bloqueio amplo da internet (imposto a 8 de janeiro, no contexto de uma nova vaga de protestos) começaram a surgir sinais de que a ligação está a regressar, mas apenas de forma parcial e fragmentada. No domingo, 18 de janeiro de 2026, uma organização independente de monitorização e cibersegurança (a https://netblocks.org/) indicou que os dados de tráfego mostram uma recuperação relevante de alguns serviços online.

Contudo: não parece estar a voltar “a internet normal”. O que os indicadores sugerem é a reativação de acessos com um nível elevado de filtragem e controlo. Em termos práticos, isso costuma significar que certos serviços voltam a funcionar (ou funcionam de forma intermitente), enquanto outros continuam bloqueados, degradados ou sujeitos a inspeção e restrições. A própria leitura da NetBlocks é coerente com aquilo que normalmente se observa nestes cenários: um retorno parcial, seletivo, e politicamente calibrado, que tenta aliviar pressão económica e social sem devolver capacidade plena de coordenação e divulgação aos manifestantes.

Este tipo de restabelecimento “controlado” e muito limitado tem efeitos diretos no dia a dia: empresas e pessoas recuperam ferramentas básicas (pesquisa, email, alguns serviços na nuvem), mas continuam a enfrentar dificuldades em redes sociais, plataformas de mensagens, plataformas de vídeo/streaming e canais onde a mobilização e a prova pública da repressão circulam mais rapidamente. E mesmo quando regressa, o acesso à rede permanece lento, muito instável e altamente imprevisível: o suficiente para dizer que o Regime possa dizer que já existe internet, mas insuficiente para permitir comunicação livre e organizada.

O que convém vigiar nos dias seguintes é se a recuperação se estender a mais serviços e operadoras, ou se fica confinada a algumas “janelas” de acesso; se há diferenças claras entre grandes cidades e regiões periféricas; e se o padrão de filtragem se torna mais agressivo (bloqueios a VPN, throttling seletivo, interrupções noturnas). O regime costuma usar estas ferramentas como instrumento de gestão de crise: fecha a internet para desorganizar os protestos, a oposição interna e o alcance global das redes internacionais de apoio à liberdade no Irão e reabre parcialmente para reduzir custos às suas empresas, exército, à Guarda Revolucionária e aos bancos e as críticas internacionais, mas mantendo o controlo para evitar que a contestação recupere capacidade de coordenação e concentração.

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