Do ponto de vista técnico, o que o regime iraniano tentou executar em 8 de janeiro de 2026 foi uma operação combinada de bloqueio e controlo de rede, que incluiu interferência seletiva em ligações de satélite e cortes deliberados em infraestruturas terrestres, conforme indicaram medições da NetBlocks e Cloudflare Radar. Embora tenham circulado alegações sobre operações de negação de serviço em larga escala e interferência eletromagnética, não há confirmação independente de uso operacional de sistemas de guerra eletrónica no espectro espacial.
A presença não confirmada publicamente de sistemas russos Krasukha-4 no Irão tem sido alvo de especulação desde, pelo menos, meados de 2025, mas não há provas definitivas da presença destes equipamentos no Irão. Cada unidade destas tem um custo estimado por unidade de entre 125 e 175 milhões de rublos, cerca de 2 a 3 milhões de dólares, segundo dados russos anteriores a 2023. Estes sistemas têm como função primária degradar radares aerotransportados e comunicações satélite-terra táticas, operando tipicamente nas bandas X (7,5–10,5 GHz) e Ku (12–18 GHz), com alcance efetivo máximo de cerca de 150–300 km, embora valores exatos variem por versão.
O Murmansk-BN, um sistema russo de guerra eletrónica de longo alcance (HF, 1,5–30 MHz), tem capacidade declarada de interferir transmissões até 3.000–5.000 km, mas destina-se a comunicações de rádio de onda curta, não a satélites de órbita baixa como a Starlink. Assim, é plausível que o regime iraniano esteka a complementar ambos os sistemas Murmansk-BN e Krasukha-4 para conseguir “negação espacial” e fechar o espaço electrónico no Irão.
Às 22:00 (hora local) de 8 de janeiro de 2026, verificou-se um blackout quase total: os dados da NetBlocks mostram uma queda de 96–98% na conectividade nacional, afetando os principais operadores (TCI, MCI e Irancell). Os efeitos – perda de pacotes, aumento da latência e falhas gerais em aplicações que funcionam em tempo real – são, com efeito, consistentes com desligamentos centralizados e restrição física de redes.
Aplicações tais como chamadas de vídeo, streaming e serviços cloud síncronos degradam-se rapidamente com perdas superiores a 10–15%, conforme estudos da Cisco e da ThousandEyes, e perdas de 30–40% tornam fluxos em tempo real inutilizáveis.
Contudo, a arquitetura da Internet, desenhada para níveis militares de resiliência, mantém-se operante mesmo sob falhas massivas desta escala. O TCP usa controlo de congestão, retransmissão e confirmação de entrega, garantindo que pequenos blocos de dados (mensagens de texto, instruções curtas) continuam a circular, ainda que sob taxas reduzidas. Em contexto de blackout, comunicações de baixa largura de banda via SMS, Bluetooth e redes mesh improvisadas foram reportadas como funcionais por utilizadores e grupos de monitorização digital como Filterwatch.
Quando Reza Pahlavi divulgou o apelo público: “às 20h locais de 8 e 9 de janeiro, uma hora, uma ação, um comportamento”, a mensagem propagou-se através de múltiplos canais descentralizados, confirmada por vídeos geolocalizados e reportagens da BBC Persian e da CNN.
Um fluxo de vídeo HD consome 3–6 Mbps; 4K, 15–25 Mbps. Já uma instrução de textp consome menos de 2 kilobits: uma diferença de cinco ordens de grandeza. Assim, degradar serviços de consumo não implica eliminar comunicações mínimas.
O Starlink manteve alguma conectividade parcial em províncias do norte, segundo utilizadores nas redes sociais (reddit e X) e medições da Psiphon e Cloudflare, mas sofre com grandes interrupções. O evento foi descrito como “o pior apagão digital da história iraniana”, mas as observações indicam que, apesar da gravidade, pequenas janelas de upload bastaram para difundir mensagens curtas.
Sistemas de jamming em larga escala são energicamente dispendiosos e facilmente detetáveis. Uma interferência total e sustentada exigiria disposição física extensa ou apoio orbital, algo não observado por satélites civis de monitorização como Sentinel-1 ou Planet Labs. Assim, é mais provável que a operação tenha combinado guerra eletrónica localizada com controlo direto sobre infraestruturas domésticas.
Em termos sistémicos, os Estados podem cortar consumo massivo de dados, mas não eliminar a coordenação básica. A largura de banda mínima necessária para ação coletiva é, de facto, tão baixa que escapa ao controlo centralizado.
O investimento em sistemas de guerra eletrónica e bloqueio de rede, que paralisou serviços como TikTok, YouTube e Zoom, falhou em impedir comunicações críticas: às 20:00 de 8 e 9 de janeiro, centenas de milhares de iranianos sabiam que devem gritar das janelas: “Morte ao Ditador”: e foi exactamente isso que fizeram.

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