Um dispositivo capaz de interceptar sinais telefónicos foi provavelmente utilizado durante a Convenção Nacional Democrata (DNC) de 2024 em Chicago, segundo apurou a WIRED. A revelação levanta questões críticas sobre quem autorizou o seu uso e para que finalidade.

O dispositivo em questão, conhecido como simulador de torre celular, foi identificado pela Electronic Frontier Foundation (EFF), organização de defesa dos direitos digitais, após análise de dados recolhidos pela WIRED durante o evento, realizado em agosto.

Os simuladores de torre celular imitam torres de comunicações, recolhendo dados sensíveis como metadados de chamadas, informações de localização e tráfego de aplicações de todos os telemóveis dentro do seu alcance. Esta tecnologia tem sido amplamente criticada por ativistas e defensores da privacidade, que alertam para o seu potencial uso para monitorizar protestos e suprimir dissidências.

A DNC ocorreu em meio a protestos generalizados contra os ataques de Israel a Gaza. Enquanto influenciadores credenciados participavam em eventos exclusivos, milhares de manifestantes enfrentavam uma forte presença policial, incluindo agentes da Polícia do Capitólio dos EUA, Serviço Secreto, Departamento de Segurança Interna (DHS), autoridades locais e polícia de Chicago.

Preocupada com possível vigilância, a WIRED realizou um inquérito sem precedentes com equipamentos de deteção, incluindo telemóveis Android modificados e ferramentas desenvolvidas pela EFF para identificar sinais de simuladores de torre celular.

Embora testes iniciais durante o evento não tenham encontrado provas conclusivas, uma reanálise posterior pela EFF, utilizando métodos mais avançados, revelou indícios suspeitos. Segundo Cooper Quintin, tecnólogo da EFF, no dia 18 de agosto, um dispositivo transportado por repórteres da WIRED mudou abruptamente para uma nova torre, que solicitou o número IMSI (identificador único do dispositivo) antes de desconectar-se imediatamente. Este comportamento é típico de simuladores de torre celular.

“Isso é extremamente suspeito”, diz Quintin, destacando que tal padrão é raramente observado em torres normais. Apesar de não ser uma prova absoluta, Quintin considera que os indícios sugerem fortemente a presença de um simulador, sem que seja possível determinar se foi usado pelo governo dos EUA, atores estrangeiros ou outra entidade.

A legislação de Illinois exige mandados para o uso de simuladores por autoridades policiais, exceto em situações de emergência nacional. No entanto, um relatório de 2023 revelou que o DHS nem sempre cumpre estas exigências.

A Polícia de Chicago afirmou não ter utilizado simuladores durante o evento, enquanto o Serviço Secreto recusou-se a comentar os seus métodos operacionais. Outros órgãos do DHS e o DNC não responderam aos pedidos de esclarecimento.

Casos semelhantes foram registados anteriormente, incluindo uma alegação em 2019 de que Israel teria usado simuladores perto da Casa Branca, acusação que foi negada pelo governo israelita.

Para Nate Wessler, da ACLU, a possível presença de simuladores no DNC é preocupante. “Se confirmada, seria uma questão grave, especialmente se usada para identificar manifestantes”, disse. A ambiguidade sobre o seu uso, acrescenta, tem um efeito assustador sobre a liberdade de expressão: “A incerteza mina a capacidade das pessoas de se expressarem livremente.”

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